domingo, 16 de agosto de 2015

De como a Idade Moderna começou há 600 anos, e dos feitos de armas da Ínclita Geração em Ceuta.

Painel de azulejos de Jorge Colaço (1864 - 1942) 
na Estação de São Bento, no Porto: o Infante D. Henrique
na conquista de Ceuta (Wikipedia Commons)

Seis séculos após a Conquista de Ceuta, vale a pena deixar esta nota sobre um acontecimento absolutamente marcante da história da Europa e do Mundo: a Reconquista chega a África quando ainda na Península Granada resistia, sendo considerado o fim da Idade Média e do ideal de Reconquista ao mesmo tempo que anuncia a Idade Moderna e o expansionismo Português (e Ibérico, sendo Europeu por inerência e não por popularidade).

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

De como no quarto dia de combate João Pessoa se fez explodir com a Madre de Deus, e de como se fizeram filmes por muito menos.

«Black Carrack» from the Nanban period
 (Wikipedia Commons)

There is little to be gained in explaining more than the essential, since as often is the case with this matters it is less due to lack of available information (the Wikipedia article is a good starting point) and more due to unwillingness to find it that one finds him or herself distanced from the most basic information: in the early 17th century - some sixty years after Portugal first arrived in Japan - the captain of the Madre de Deus carrack sustain a three-day attack from the samurais of the Arima clan, killing «several hundred» while progressively losing his fifty-strong crew, ending it all when boarding was unavoidable by personally setting the gunpowder cargo on fire and exploding the ship with everyone who was on board. This action was - according to Boxer - partially responsible for the «myth» of Portuguese invincibility in Japan and would guarantee a certain mix of fear and respect that would explain how Portugal maintained parts of the Oriental Empire for so long.


So, nothing particular strange or noteworthy when included in the catalogue of similar episodes that together explain part of the success of the early expansion of Portugal, even when considering that some of them were certainly embellished, and this because this sort of *modus operandi* was essential in such a spread-out Empire (although perhaps strange and noteworthy for the modern-day heirs of post 18th century historiography that quickly understood that the Past should always be a reflection of the Present, and as such such episodes are better ignored, misattributed, downplayed or decontextualised -  and if Internet fora are anything to go by they are an overwhelming majority).

This article is thus not about how before the «Last Samurai» there was apparently on «First Samurai», but more about the historiographic implications and reactions (in Portuguese from now on, I will try to add some highlights latter, time permitting).

A questão prende-se também com o papel de C. R. Boxer e a época em que viveu. O homem é «o homem e a sua circunstância», como diria Ortega y Gasset, e é interessante ler na recensão crítica de Reinier Hesselik uma referência explícita a esse aspecto: as primeiras menções de Boxer ao caso são mais «heróicas» para os Portugueses que as finais, sendo que tal evolução é para o auto parte não só da evolução natural enquanto historiador (e aponta críticas fundadas à dificuldade em encontrar relatos adicionais que permitissem separar o que aconteceu do mito que se criou) mas também com a natural evolução dos tempos e a adopção por Boxer de uma nova visão nascida de um mundo cada vez mais pós-colonial, em nítido contraste com o mundo dos anos vinte de quando escreveu o artigo original.

Esta observação é interessante, e não só por ser verdadeira; uma leitura do The Portuguese Seaborne Empire, publicado já pero dos anos setenta, dificilmente permite sustentar a imagem de um apologista do imperialismo português - aliás, é desta altura a discordância com as teorias luso-tropicalistas com que o regime de Salazar pretendia justificar retroactivamente o «carácter excepcional» do colonialismo português. Sendo um recurso fundamental não é de forma alguma uma apologia.

E porque razão é isto importante? Porque é de facto fundamental saber onde acaba a narrativa heróica e começa a análise histórica, mas esse cuidado deve ser aplicado também à diferente valorização feita durante os últimos séculos no âmbito do declínio dos «povos peninsulares»: um militar francês do século XVII escreveu num relato sobre as Américas que «os Portugueses fizeram o mais fácil», sendo supostamente o difícil enviar forças militares para locais conhecidos, usando rotas conhecidas e com estimativas de chegada conhecidas. O destino da France Antarctique é neste caso suficiente para colocar as «facilidades» em perspectiva, mas durante dois séculos preparou-se o clima que ainda hoje se sente em termos de «conhecimento popular»: o Presente não permite que possa falar excessivamente do Passado, reservado aristocraticamente para quem ganhou, afinal, na guerra dsa taxas de juro.


domingo, 6 de janeiro de 2013

De como os dragões das cartas Portuguesas se espalharam pelo mundo, e como foram esquecidos em sua terra natal

Cartas Portuguesas de 1770
Detalhes dos Dragões  como Ases
Réplica INCM, 2012
[English Abstract: Portuguese playing cards are nowadays not used in Portugal or Brasil, having been gradually replaced by Anglo-Norman decks since the XIX century in both continents, this being the reason of the lack of relationship between the names of the suits and the symbols. The traditional Portuguese deck was of the Latin family, and hence similar to the Italian and Spanish decks, where the names of the suits evoke the corresponding symbols. The Portuguese deck has in the ace cards one of its most distinguishing features, using dragons for all suits. During the Age of the Discoveries this was the deck that was carried abroad to other continents and amongst others inspired the "unsu karuta", the Japanese deck (うんすんかるた, with karuta from the Portuguese "carta"). The dragons used as aces follow a tradition of using wyverns and other related heraldic devices in the Royal Arms of Portugal]


Até há pouco tempo desconhecia que tivesse existido um baralho de cartas Português, integrado na mesma tradição dos baralhos italianos e espanhóis, e que não só tem algumas especificidades interessantes como um impacto global ao ser o primeiro baralho de estilo europeu a ser visto e copiado fora do Velho Continente.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

De como a passagem de ano de 1501 foi diferentemente atribulada, e como João da Nova derrotou o Samorim

"Frol de La Mar", Terceira Armada da Índia, séc. XVI

Na preparação de um ano que se avizinha especialmente deprimente - em todos os sentidos - servem estas notas para recordar que há cerca de meio milénio atrás as preocupações nacionais eram diferentes: o galego João da Nova, criado em Portugal e que para além de almirante da Terceira Armada da Índia foi Alcaide de Lisboa,comandou uma frota Portuguesa que na Batalha de Cananor derrota o Samorim e cimenta o domínio sobre o Índico, que começaria a ser apelidado de "lago português").

sábado, 29 de dezembro de 2012

De como uma descrição do século XVIII é aplicada a futebolistas em Espanha

Mulheres Portuguesas, séc. XVIII


Tenho lido uns ecos (algo remotos, não é tema especialmente profundo...) sobre o que futebolistas portugueses podem ou não estar a passar em Espanha.

O assunto em si é relativamente inócuo, quanto mais não seja porque a opinião que os Espanhóis tenham é algo que me parece difícil de generalizar, e existe concerteza aqui um empolamento óbvio da situação que pode não passar de uma série de disparates. Os Espanhóis são, regra geral, boas pessoas sem grande tempo ou paciência para acertos de contas imaginários com base em eventos seculares.

Seja como for, e como a situação actual de Portugal se parece prestar a mal-entendidos, lembrei-me de um texto do arquitecto Britânico James Murphy que por estes lados passou no século XVIII, e que a dada altura refere:

De como Artur Neiva é citado e a ortografia debatida

Convento do Carmo, Lisboa


Interessante excerto de um filólogo brasileiro - Artur Neiva - relativo ao português, e mais especificamente no que na altura era visto (e bem visto) como um certo ataque à grafia usada no Brasil pela reforma unilateral de 1911 em Portugal:

"...A confusão ortográfica em que o país se debate é de causar a maior lástima, porque estamos sacrificando uma geração inteira. Não há uniformidade e sente-se a preocupação de se impôr, através da ortografia simplificada, a atual pronúncia lusa que nós agora repelimos, porque mantemos viva a que eles nos trouxeram e herdamos.
Sutilmente começam a escrever receção, setor, seção, que nós pronunciamos recepção, sector, secção. Tal pronúncia se difundirá um pouco, mas não se fixará..."

in "Estudos da Língua Nacional", 1940 (ênfase minha)

Interessante em particular: