sábado, 29 de dezembro de 2012

De como Artur Neiva é citado e a ortografia debatida

Convento do Carmo, Lisboa


Interessante excerto de um filólogo brasileiro - Artur Neiva - relativo ao português, e mais especificamente no que na altura era visto (e bem visto) como um certo ataque à grafia usada no Brasil pela reforma unilateral de 1911 em Portugal:

"...A confusão ortográfica em que o país se debate é de causar a maior lástima, porque estamos sacrificando uma geração inteira. Não há uniformidade e sente-se a preocupação de se impôr, através da ortografia simplificada, a atual pronúncia lusa que nós agora repelimos, porque mantemos viva a que eles nos trouxeram e herdamos.
Sutilmente começam a escrever receção, setor, seção, que nós pronunciamos recepção, sector, secção. Tal pronúncia se difundirá um pouco, mas não se fixará..."

in "Estudos da Língua Nacional", 1940 (ênfase minha)

Interessante em particular:



  • A nota relativa aos arcaísmos: existem muitos vocábulos e dicções brasileiros que são vistos por nós como "inovações" quando são na verdade arcaísmos, i.e. quem divergiu fomos nós.
  • A implícita recusa da "ortografia simplificada"; este ponto é para mim especialmente interessante porque ainda não consegui perceber bem parte do argumentário anti Acordo Ortográfica (ver abaixo)
  • A preocupação que no Brasil se deixe de pronunciar os "p" intervocálicos - não sei se todos os exemplos são ainda válidos ou se entretanto alguns já perderam o "p".

Em relação ao acordo ortográfico, sou contra os dois: este, e a Reforma Ortográfica de 1911. Todos os argumentos actuais contra o último acordo são tão ou mais válidos em relação à Reforma de 1911 e não vejo como é que se pode estar a favor de um e contra o outro, sendo que a de 1911 foi muito mais profunda. Só tenho pena que o Brasil tenha em 1931 cedido e aceite de forma integral esta reforma brutal - lembrem-se disto os que vêm nisto dos Acordos uma espécie de guerra de capoeira onde o importante é ter um vencedor. Em comparação com a Reforma de 1911 este último acordo é practicamente nada.

A famosa frase de Pessoa, "A minha Pátria é a língua Portuguesa", é vulgarmente (mal) utilizada: Pessoa não se referia a uma "irmandade universal" tendo a língua como factor de união, mas sim ao acordo proposto:

"Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portugueza. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa propria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ipsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse"

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