sábado, 29 de dezembro de 2012

De como uma descrição do século XVIII é aplicada a futebolistas em Espanha

Mulheres Portuguesas, séc. XVIII


Tenho lido uns ecos (algo remotos, não é tema especialmente profundo...) sobre o que futebolistas portugueses podem ou não estar a passar em Espanha.

O assunto em si é relativamente inócuo, quanto mais não seja porque a opinião que os Espanhóis tenham é algo que me parece difícil de generalizar, e existe concerteza aqui um empolamento óbvio da situação que pode não passar de uma série de disparates. Os Espanhóis são, regra geral, boas pessoas sem grande tempo ou paciência para acertos de contas imaginários com base em eventos seculares.

Seja como for, e como a situação actual de Portugal se parece prestar a mal-entendidos, lembrei-me de um texto do arquitecto Britânico James Murphy que por estes lados passou no século XVIII, e que a dada altura refere:



There are no people in Europe, Sir, whose real character is less known than those of Portugal; for as is but little studied or understood our knowledge of them is derived chiefly from the Spanish writers, and a Spaniard is rarely known to speak favourably of the Portuguese. The latter, on the contrary, whatever might be their real opinion of the former, are induced the precepts of Christian charity to speak respectfully of them. Of this we have a striking instance in a Portuguese friar of the Dominican order that lived in the sixteenth century and was confessor to D. Antonio, heir presumptive to the crown of Portugal, whom he followed into France. He there declared from the pulpit, in one of his Sermons, that we are bound to love all men of whatever religion sect or nation, even the Castilians 
From the political enmity which for ages has subsisted between the two rival powers it is probable that the accounts we receive of the Portuguese through the medium of the Spaniards are not altogether to be depended upon. On the other hand if we take the character of the Portuguese from the native writers we shall imagine they possess not only all the good qualities in existence but are exempted from all the bad ones.
in "Travels in Portugal; through the Provinces etc.", James Murphy, 1795 (ênfase no original, negrito meu)


O primeiro parágrafo vale por si, e note-se a fineza de salientar que até os Castelhanos merecem o dever de amor cristão - note-se que estávamos em pleno século XVI e após a luta dinástica pelo trono após a morte d'El-Rei D. Sabastião; o segundo é interessante numa altura onde se reescreve a história de forma permanente e se tenta aplicar aos Portugueses uma série de características atávicas, que "sempre foram assim", sendo uma delas uma suposta "humildade". Que à falta de Portugueses e abundância de "tugas" isso se verifique hoje em dia vá que não vá, mas é intelectualmente desonesto fazer das deficiências hodiernas uma espécie de perfil típico, sempre constante ao longo da nossa história.


Sem ser uma conclusão, acho que idealmente nos deveriamos preocupar em ter mais os defeitos do segundo parágrafo que a virtude do primeiro. Isto pode ser a minha origem Castelhana a falar (que, já agora, me orgulha), mas nada me deprime mais do que o elogio tácito a uma humildade que roça a subserviência.

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