domingo, 6 de janeiro de 2013

De como os dragões das cartas Portuguesas se espalharam pelo mundo, e como foram esquecidos em sua terra natal

Cartas Portuguesas de 1770
Detalhes dos Dragões  como Ases
Réplica INCM, 2012
[English Abstract: Portuguese playing cards are nowadays not used in Portugal or Brasil, having been gradually replaced by Anglo-Norman decks since the XIX century in both continents, this being the reason of the lack of relationship between the names of the suits and the symbols. The traditional Portuguese deck was of the Latin family, and hence similar to the Italian and Spanish decks, where the names of the suits evoke the corresponding symbols. The Portuguese deck has in the ace cards one of its most distinguishing features, using dragons for all suits. During the Age of the Discoveries this was the deck that was carried abroad to other continents and amongst others inspired the "unsu karuta", the Japanese deck (うんすんかるた, with karuta from the Portuguese "carta"). The dragons used as aces follow a tradition of using wyverns and other related heraldic devices in the Royal Arms of Portugal]


Até há pouco tempo desconhecia que tivesse existido um baralho de cartas Português, integrado na mesma tradição dos baralhos italianos e espanhóis, e que não só tem algumas especificidades interessantes como um impacto global ao ser o primeiro baralho de estilo europeu a ser visto e copiado fora do Velho Continente.



Copas, espadas, paus e ouros. Os nomes dos naipes das cartas de jogar são repetidos e associados aos seus símbolos de forma automática, e raramente se pára para pensar o óbvio: porque razão é que os nomes não têm uma relação visível com os grafismo. Quem conhecer o baralho espanhol está perto de saber a resposta, que deriva do simples facto do baralho "francês" (ou Anglo-Normando, ou de "poker",entre outros nomes) ser uma introdução recente (séc. XIX). Esta descontinuidade fez com que os nomes dos naipes fossem de forma mais ou menos arbitrária atribuídos aos novos símbolos, sendo que no caso do baralho tradicional é óbvia a sua relação:

Cartas Portuguesas de 1770
Cartas numéricas
Réplica INCM, 2012

  • 6 de Ouros: 6 moedas de ouro
  • 5 de Espadas: 5 espadas
  • 3 de Paus: 3 paus
  • 7 de Copas: 7 copos ("copa" é sinónimo, embora não tão utilizado hoje em dia)
O baralho espanhol tem bastantes semelhanças com o português, sendo que se integram numa mesma família de baralho Latino, partilhado pelos baralhos Italianos e outras variantes regionais. A principal diferença está na utilização de dragões como ases no baralho português, em comparação com os ases do baralho espanhol
Cartas Espanholas, modernas
Ases

Este baralho foi transportado durante as Descobertas, sendo que foi de uso comum no Brasil, tendo sofrido um processo de substituição pelos naipes franceses semelhante ao de Portugal. No Brasil a sua utilização pouco espanta, muitos usos e costumes portugueses foram naturalmente transportados para o Brasil e constituíram património próprio mesmo após a independência (ou melhor, passaram a constituir património brasileiro). Talvez mais interessante seja a influência que este baralho, hoje já praticamente esquecido em Portugal e no Brasil, teve em paragens mais distantes. Citando uma página da especialidade e que congrega autores que são fontes autoritárias na matéria:

Existem notícias de cartas de jogar em Portugal, desde finais do século XV. O seu padrão gráfico era diferente dos existentes na actualidade e perdurou cerca de 400 anos, isto é, até finais do século XIX. De provável origem italiana, é conhecido internacionalmente como «cartas do dragão» ou «cartas portuguesas». Enviado para todo o mundo nas nossas naus, já no século XVI era fabricado pelos japoneses que, ainda hoje, continuam esse padrão e jogam com as «unsun karuta».
in Brevíssima nota sobre as Cartas de Jogar em Portugal, Cartas de Jogar

Um exemplo desta cartas Japoneses demonstra a inspiração que o baralho português forneceu, sendo imediatamente notória na utilização de dragões:

Baralho Japonês
(うんすんかるた)
Para além dos naipes existem algumas características adicionais em vários jogos tradicionais que parecem aleatórias mas que são na verdade fruto da descontinuidade que se verificou em termos do baralho utilizado:

  • A remoção de cartas para alguns jogos, nomeadamente o 8, 9 e 10.
  • A hierarquia tradicional, que é Rei/Valete/Dama e não Rei/Dama/Valete
  • Os próprios nomes ainda utilizados, como "sota" para a Dama.

Cartas Portuguesas de 1770
Figuras
Réplica INCM, 2012


Os dragões utilizados são do género "serpe alada", bastante utilizado em Portugal. Sem querer avançar por terrenos demasiado herméticos (sendo que o território de Portugal foi já chamado de Ophiusa - Terra das Serpentes - por Avieno na sua Ora Marítima do séc. IV AC, e que alguns relacionam com a "Serpe Real" posteriormente utilizada pelas dinastias reais portuguesas) note-se que tanto o suporte como timbre das Armas de Portugal estão associados a dragões:

Armas de Portugal, séc. XVIII
Wikipedia
A representação do Rei Afonso V pelo Rei de Armas da Ordem do Tosão de Outro, Jean de Saint-Rémi, no armorial da Ordem (exemplos adicionais poderiam ser a representação das armas de D. João I):

Rei D. Afonso V de Portugal, conforme representado
no Grand armorial équestre de la Toison d'or,
séc XV

Esta é, de resto, a origem do dragão que encima o ceptro imperial do Brasil:

Imperador D. Pedro II
Fala do Trono, séc. XIX


Aconselha-se vivamente a obra "História das Cartas de Jogar em Portugal e da Real Fábrica de Cartas de Lisboa - Do séc. XV até à actualidade", da autoria de Fernanda Frazão, que detalha de forma bastante mais exaustiva este tema. A mesma autora coordenou a interessantíssima colecção de réplicas publicada pela Imprensa Nacional / Casa da Moeda, cuja réplica do baralho de 1770 adquri e é a fonte das imagens utilizadas nesta página. 

Réplica do baralho Português de 1770 - INCM
Aconselho uma pesquisa adicional  tanto na página da INCM como na editora Apenas Livros: na primeira para se encontrarem réplicas de baralhos adicionais de igual importância histórica, na segunda por existirem mais livros da mesma autora sobre a mesma temática.

Para finalizar deixo uma breve nota relativa à forma como em Portugal (e no Brasil) se esquece o que se tem, independentemente do seu valor, e como somos surpreendidos ao descobrir que algo que acabámos por desprezar teve uma relevância importante do ponto de vista cultural para outros povos. O baralho português acima é uma réplica extraordinariamente interessante, e seria também interessante que pudesse servir de base à produção mais ampla de baralhos do mesmo tipo para fins lúdicos.


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