quarta-feira, 12 de agosto de 2015

De como no quarto dia de combate João Pessoa se fez explodir com a Madre de Deus, e de como se fizeram filmes por muito menos.

«Black Carrack» from the Nanban period
 (Wikipedia Commons)

There is little to be gained in explaining more than the essential, since as often is the case with this matters it is less due to lack of available information (the Wikipedia article is a good starting point) and more due to unwillingness to find it that one finds him or herself distanced from the most basic information: in the early 17th century - some sixty years after Portugal first arrived in Japan - the captain of the Madre de Deus carrack sustain a three-day attack from the samurais of the Arima clan, killing «several hundred» while progressively losing his fifty-strong crew, ending it all when boarding was unavoidable by personally setting the gunpowder cargo on fire and exploding the ship with everyone who was on board. This action was - according to Boxer - partially responsible for the «myth» of Portuguese invincibility in Japan and would guarantee a certain mix of fear and respect that would explain how Portugal maintained parts of the Oriental Empire for so long.


So, nothing particular strange or noteworthy when included in the catalogue of similar episodes that together explain part of the success of the early expansion of Portugal, even when considering that some of them were certainly embellished, and this because this sort of *modus operandi* was essential in such a spread-out Empire (although perhaps strange and noteworthy for the modern-day heirs of post 18th century historiography that quickly understood that the Past should always be a reflection of the Present, and as such such episodes are better ignored, misattributed, downplayed or decontextualised -  and if Internet fora are anything to go by they are an overwhelming majority).

This article is thus not about how before the «Last Samurai» there was apparently on «First Samurai», but more about the historiographic implications and reactions (in Portuguese from now on, I will try to add some highlights latter, time permitting).

A questão prende-se também com o papel de C. R. Boxer e a época em que viveu. O homem é «o homem e a sua circunstância», como diria Ortega y Gasset, e é interessante ler na recensão crítica de Reinier Hesselik uma referência explícita a esse aspecto: as primeiras menções de Boxer ao caso são mais «heróicas» para os Portugueses que as finais, sendo que tal evolução é para o auto parte não só da evolução natural enquanto historiador (e aponta críticas fundadas à dificuldade em encontrar relatos adicionais que permitissem separar o que aconteceu do mito que se criou) mas também com a natural evolução dos tempos e a adopção por Boxer de uma nova visão nascida de um mundo cada vez mais pós-colonial, em nítido contraste com o mundo dos anos vinte de quando escreveu o artigo original.

Esta observação é interessante, e não só por ser verdadeira; uma leitura do The Portuguese Seaborne Empire, publicado já pero dos anos setenta, dificilmente permite sustentar a imagem de um apologista do imperialismo português - aliás, é desta altura a discordância com as teorias luso-tropicalistas com que o regime de Salazar pretendia justificar retroactivamente o «carácter excepcional» do colonialismo português. Sendo um recurso fundamental não é de forma alguma uma apologia.

E porque razão é isto importante? Porque é de facto fundamental saber onde acaba a narrativa heróica e começa a análise histórica, mas esse cuidado deve ser aplicado também à diferente valorização feita durante os últimos séculos no âmbito do declínio dos «povos peninsulares»: um militar francês do século XVII escreveu num relato sobre as Américas que «os Portugueses fizeram o mais fácil», sendo supostamente o difícil enviar forças militares para locais conhecidos, usando rotas conhecidas e com estimativas de chegada conhecidas. O destino da France Antarctique é neste caso suficiente para colocar as «facilidades» em perspectiva, mas durante dois séculos preparou-se o clima que ainda hoje se sente em termos de «conhecimento popular»: o Presente não permite que possa falar excessivamente do Passado, reservado aristocraticamente para quem ganhou, afinal, na guerra dsa taxas de juro.




Boxer, C. R. (2010). The Affair of the Madre de Deus: A Chapter in the History of the Portuguese in Japan. Routledge.
Charles R. Boxer. The Affair of the Madre de Deus. A Chapter in the History of the Portuguese in Japan (Routledge Library Editions: Japan. London and New York: Routledge, 2011). In: Interdisciplinary Journal for Portuguese Diaspora Studies, vol. 1 (2012): 203-6.


Boxer, C. R., & Boxer, C. R. (1969). The Portuguese seaborne empire, 1415-1825 (Vol. 1). London: Hutchinson.

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